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Brasil vai à Dinamarca aprender a construir eólicas no mar: o que o país mais avançado do mundo tem a ensinar

7 min de leitura

Energia Limpa, noticias

Atualizado em mai/2026 · Equipe Energia Ekko Green

Técnicos da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) e do Ministério de Minas e Energia (MME) passaram a semana de 25 a 29 de maio de 2026 na Dinamarca estudando o modelo de energia eólica offshore mais consolidado do mundo. A missão técnica integra o processo de regulamentação da Lei nº 15.097/2025, o marco legal que abriu o setor eólico offshore brasileiro à iniciativa privada, e antecede a publicação do decreto que vai definir o processo de seleção de áreas no mar brasileiro.

O Brasil tem 1.200 GW de potencial eólico offshore mapeado — um dos maiores do mundo, segundo dados da EPE. O que falta não é vento. É o modelo regulatório e técnico para transformar esse potencial em energia na tomada.

Por que a Dinamarca? O que 30 anos de offshore podem ensinar ao Brasil

A Dinamarca não inventou a turbina eólica ontem. O país opera turbinas no mar desde 1991, quando inaugurou o primeiro parque offshore do mundo em Vindeby. Hoje, a energia eólica offshore responde por mais de 40% da geração elétrica dinamarquesa, e o país exporta tecnologia e know-how para mais de 80 nações.

O modelo dinamarquês se construiu em três camadas que o Brasil ainda está desenvolvendo:

Zoneamento antecipado de áreas. O governo dinamarquês mapeia, licencia e pré-qualifica as áreas de concessão antes de abrir o leilão. O investidor chega com risco reduzido, o que derruba o custo do capital e, consequentemente, o preço final da energia.

Cadeia de fornecimento local. As empresas dinamarquesas Vestas e Ørsted (hoje a maior operadora de offshore do mundo) surgiram dentro de uma política industrial deliberada. Não foi só regular — foi construir indústria doméstica junto com as regras.

Contratos de longo prazo com receita garantida. Os primeiros parques funcionavam com contratos de venda de energia com prazo de 20 anos e preço fixo. Isso deu previsibilidade suficiente para que bancos financiassem projetos bilionários a taxas razoáveis.

Nenhuma dessas três peças existe no Brasil ainda. A missão à Dinamarca serve exatamente para entender como montar esse conjunto.

Ilustração comparativa entre parque eólico offshore da Dinamarca (esquerda) e potencial da costa brasileira (direita)

O que é o GT Eólicas Offshore e quem está dentro

O Grupo de Trabalho Eólicas Offshore foi criado pela Resolução CNPE nº 18/2025 e reúne 23 instituições — entre ministérios, agências reguladoras, universidades e entidades do setor. Participam, entre outros, o MME, a EPE, a ANEEL, a ANTAQ, a Marinha do Brasil e o IBAMA.

Esse GT está no centro da regulamentação pós-marco legal. É ele que vai definir os critérios técnicos de seleção de áreas, as exigências ambientais específicas para o ambiente marinho e os padrões mínimos de segurança para instalação e manutenção das turbinas.

A missão técnica à Dinamarca é parte do trabalho desse grupo. A ideia é levar para as salas de reunião no Brasil as lições práticas que a Dinamarca levou décadas para aprender — incluindo os erros.

O que falta antes do primeiro leilão: um mapa honesto

O marco legal está aprovado. A missão técnica está acontecendo. Mas nenhum leilão de eólica offshore foi marcado no Brasil ainda. Entender o que falta é importante para não criar expectativas fora do prazo.

O decreto regulamentador ainda precisa ser publicado. Ele vai definir como as empresas vão se habilitar para participar da seleção de áreas, quais os critérios de prioridade e como serão os processos de licenciamento ambiental específicos para o ambiente marinho.

Depois do decreto, vem o processo de seleção de áreas propriamente dito. A EPE já tem um mapeamento preliminar de potencial, mas a confirmação técnica de quais zonas são viáveis (batimetria, distância da costa, interferência com rotas marítimas e pesca artesanal) leva meses de estudo.

Só então há o leilão de energia. E entre o leilão e a primeira turbina girando no mar, o prazo histórico em países que estão desenvolvendo offshore do zero fica entre 5 e 8 anos.

Ou seja: o processo que está se construindo agora vai determinar o preço da energia elétrica brasileira em 2032, 2033, 2034.

Por que isso importa para a sua conta de luz

O Brasil tem uma das matrizes elétricas mais renováveis do mundo, com hidrelétricas como base. Mas a geração hídrica tem um problema estrutural: depende de chuva. Nos anos de seca severa, o país aciona termelétricas a combustível fóssil para compensar, e isso eleva o custo na tarifa de todos.

A eólica offshore tem uma propriedade que a torna especialmente complementar à hídrica: gera mais no inverno, exatamente quando a chuva é menor no Sudeste e no Centro-Oeste. Integrar as duas fontes reduziria a necessidade de acionamento térmico e, com isso, o componente sazonal que encarece a conta de luz.

A IEA (Agência Internacional de Energia) projeta que o custo de energia eólica offshore vai cair 50% até 2035, impulsionado pela maturidade tecnológica e pela expansão global da cadeia de fornecimento. Se o Brasil acertar o modelo regulatório agora, entra nessa curva de queda em condições competitivas.

Errar o modelo — como já ocorreu em outros setores de infraestrutura — significa pagar mais por energia por décadas.

Perguntas frequentes

O que é energia eólica offshore?

Energia eólica offshore é gerada por turbinas instaladas no mar, fixadas ao fundo oceânico ou flutuantes. Os ventos marinhos são mais fortes e mais constantes que os ventos em terra, o que aumenta a geração e reduz o custo por megawatt-hora ao longo do tempo. A Dinamarca é o país com maior share de offshore na matriz elétrica do mundo.

O que é a Lei nº 15.097/2025?

A Lei nº 15.097/2025 é o marco legal que regulamentou a exploração de energia eólica offshore no Brasil. Ela define as condições gerais para autorização de uso de espaço marítimo, estabelece a obrigatoriedade de licenciamento ambiental e cria o arcabouço para os leilões de concessão de áreas no mar.

Quando vai acontecer o primeiro leilão de eólica offshore no Brasil?

Nenhuma data foi definida ainda. O decreto regulamentador, que define os critérios de seleção de áreas, ainda não foi publicado. Após o decreto, o processo de seleção e qualificação de áreas leva meses. Analistas do setor estimam que o primeiro leilão não deve ocorrer antes de 2027 ou 2028.

Qual é o potencial eólico offshore do Brasil?

A EPE mapeou 1.200 GW de potencial técnico de energia eólica offshore no Brasil — um dos maiores do mundo. Para ter uma referência: toda a capacidade instalada de energia elétrica do Brasil (de todas as fontes) é de aproximadamente 230 GW. O offshore poderia mais que quintuplicar essa capacidade, se e quando desenvolvido.

O Brasil vai replicar o modelo dinamarquês?

O objetivo da missão técnica não é copiar o modelo, mas aprender com ele. O Brasil tem características próprias — tamanho da costa, profundidade do mar ao longo da costa (mais fundo que no Mar do Norte), diferentes ecossistemas marinhos e condições de vento distintas. A Dinamarca oferece o framework regulatório e os princípios de política industrial. A adaptação é nacional.

Fontes consultadas

  • Empresa de Pesquisa Energética (EPE). Missão técnica à Dinamarca — eólica offshore. Brasília: EPE, nota oficial publicada em 28 mai. 2026. Disponível em: epe.gov.br.
  • Presidência da República. Lei nº 15.097, de 19 de março de 2025 — Marco Legal da Energia Eólica Offshore. Brasília: DOU, 2025.
  • Conselho Nacional de Política Energética (CNPE). Resolução CNPE nº 18, de 2025 — Grupo de Trabalho Eólicas Offshore. Brasília: CNPE, 2025.
  • IEA — International Energy Agency. Offshore Wind Outlook 2023. Paris: IEA, 2023. Disponível em: iea.org.
  • Danish Energy Agency. Offshore Wind — Key Figures Denmark. Copenhagen: DEA, 2025. Disponível em: ens.dk.

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Equipe de Energia

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A Equipe de Energia do Portal Ekko Green cobre a transição energética brasileira: energia solar fotovoltaica residencial e comercial, energia eólica onshore e offshore, mini geração distribuída, biomassa, hidrelétrica de pequeno porte e demais fontes renováveis. Acompanhamos o marco regulatório da ANEEL, dados de geração da ABSOLAR e ABEEólica, projetos do MME e leilões A-4/A-5/A-6. Produzimos guias de custo (R$/kWh, payback de painéis e turbinas), análises de novos modelos de equipamentos, e cobertura de tendências de mercado — sempre com foco em decisões práticas para residências, pequenos negócios e profissionais do setor.