Atualizado em 08/01/2026. O desenvolvimento do primeiro carro elétrico é bem antigo: os primeiros experimentos datam do fim do século XIX (décadas de 1880–1890), em paralelo aos veículos a combustão. No Brasil, um dos marcos mais curiosos dessa história é o Gurgel Itaipu — um projeto que ajuda a entender como a eletrificação já era discutida por aqui muito antes do tema virar “tendência”. Veja também: carros elétricos no Brasil (guia completo).
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Quando foi lançado o primeiro carro elétrico no Brasil?
Quem pensa que carros elétricos são novidade ou “invenção recente” está olhando só para a era moderna da mobilidade elétrica.
No caso brasileiro, o Gurgel Itaipu E150 foi apresentado ao público no Salão do Automóvel de 1974 e é frequentemente citado pela imprensa especializada como o primeiro carro elétrico desenvolvido na América Latina (portanto, brasileiro).
Nesse mesmo ano, o fundador da montadora nacional Gurgel Motors S/A, João Augusto Conrado do Amaral Gurgel apresentou o Itaipu, o primeiro carro elétrico da América Latina.
Limpo, silencioso e eficiente para o padrão tecnológico da época, ele nasceu como uma resposta “fora da curva” num momento em que o mundo discutia energia e combustíveis após a crise do petróleo de 1973 — e, no Brasil, começava o debate que desembocaria no Proálcool (1975).
No Brasil, muitos admiraram, outros rejeitaram, porém, esse automóvel produzido em Rio Claro (SP) pelo engenheiro João Augusto Conrado do Amaral Gurgel nunca causou o sentimento de indiferença.
Com um design geométrico que hoje parece “futurista retrô” (a comparação com veículos modernos é só estética), o Itaipu E150 usava um motor elétrico de cerca de 3,2 kW (aprox. 4,2 cv) e um conjunto de 10 baterias chumbo-ácido de 12 V ligadas em série (sistema em torno de 120 V). O tempo de recarga citado em relatos históricos costuma ficar na faixa de 8 a 10 horas (varia por carregador e condição das baterias), já que não existia recarga rápida como hoje.
A ideia principal de Gurgel em 1975 era colocar uma pequena frota experimental em circulação em Rio Claro (SP), onde ficava a fábrica — um teste de conceito em ambiente real, algo comum em projetos pioneiros.
Também se discutia a necessidade de pontos de recarga, mas é importante lembrar o contexto: não havia rede pública, nem padronização de conectores e muito menos o ecossistema que existe hoje. Somando isso às limitações de autonomia e ao peso das baterias chumbo-ácido, o Itaipu acabou ficando restrito a unidades de pré-série/protótipos, sem virar um produto de mercado em grande escala.
Itaipu E150 – Primeiro carro elétrico brasileiro
Sobre nomenclatura: as fontes técnicas e reportagens históricas mais citadas tratam o modelo como Itaipu E150. A associação do nome “Ipanema” a esse elétrico não é consenso em registros confiáveis e pode se confundir com outros projetos/nomes da Gurgel. Por isso, aqui vamos manter a denominação histórica mais documentada: Itaipu E150.
Com capacidade para apenas dois lugares e um desenho geométrico, o Itaipu E150 tinha cerca de 460 kg (estrutura do carro) e um conjunto de baterias de aproximadamente 320 kg — ou seja, algo perto de 780 kg no total, dependendo da configuração.
Naquela época, o pequenino elétrico enfrentou desafios que ainda aparecem em discussões sobre VE (mas em outro patamar): autonomia, tempo de recarga e peso das baterias. A autonomia histórica mais citada para o E150 fica em torno de 60 a 80 km, e a velocidade variava por versão/ajuste, indo de cerca de 30 km/h (protótipos iniciais) até aproximadamente 60 km/h nas evoluções do projeto.
Sobre quantidade produzida: não existe um número “fechado” universalmente aceito. Algumas fontes citam cerca de 20 unidades de pré-série. Por ser um projeto experimental e raro, diferentes relatos mencionam números próximos (faixa de dezenas), mas o mais seguro é tratar como produção muito limitada e não comercializada em massa.
Em 1980 chegou ao mercado o Itaipu E 400 fazendo parte da frota de empresas brasileiras de eletricidade.
Sobre o E400: ele aparece em registros e fichas técnicas no início dos anos 1980 (com apresentações por volta de 1981). A escala foi pequena, voltada a frotas e testes corporativos/estatais — não há base verificável para cravar “mil unidades” como número oficial, então o mais correto é dizer que foi um projeto de baixa escala.
Gurgel Itaipu E150 – Ficha técnica (valores históricos)
- Motor – elétrico CC, cerca de 3,2 kW (aprox. 4,2 cv), sistema em torno de 120 V
- Baterias – 10 × 12 V (chumbo-ácido) em série (aprox. 120 V)
- Autonomia – cerca de 60 a 80 km (estimativa histórica; variava por uso/condição)
- Peso – 460 kg (carro) + ~320 kg (baterias) ≈ ~780 kg no total
- Velocidade Máxima – de 30 km/h a 60 km/h (dependendo da versão)
- Valor hoje (colecionismo) – raríssimo; não há Tabela Fipe e preços variam muito conforme unidade, originalidade e restauração
Itaipu E400
O Itaipu E 400 é melhor descrito como um utilitário elétrico brasileiro produzido em pequena série para uso em frotas (em especial empresas/órgãos ligados a energia e serviços). Ele surgiu na esteira da experiência do E150, mas com foco mais “prático”: carga, operação urbana e manutenção de frota.
O objetivo do projeto era atender demandas de operação diária com carga útil em torno de 400 kg (o “400” do nome), autonomia na casa de 80 km e velocidade máxima de até 75 km/h, números compatíveis com uso urbano e rotas previsíveis.
Limpo, eficiente e com proposta funcional para serviço, o E400 foi apresentado com variações de cabine (como picape e furgão), mantendo a ideia do elétrico como alternativa para reduzir ruído e emissões locais em operações de frota.
Gurgel Itaipu E400 – Ficha técnica (valores históricos):
- Motor – elétrico em torno de 10 kW; sistema 96 V (referências técnicas de época)
- Câmbio / tração – manual de 4 marchas; tração traseira
- Carga útil – cerca de 400 kg
- Autonomia – cerca de 80 km (varia por carga/uso)
- Pneus – radiais 175/70 SR13
- Velocidade Máxima – 75 km/h
- Valor hoje (colecionismo) – não existe referência estável; unidades são raras e valores, quando aparecem, dependem do histórico e da restauração
Por que o Gurgel Itaipu não é comparável aos elétricos atuais
Apesar de ser um marco histórico, comparar diretamente Itaipu E150/E400 com um elétrico moderno (como BYD, GWM, Renault, Chevrolet etc.) distorce a análise. Os projetos da Gurgel nasceram num cenário sem cadeia de fornecimento, sem padronização e com limitações técnicas muito mais duras.
- Baterias: o Itaipu usava chumbo-ácido (pesadas e com baixa densidade energética). Hoje, a maioria dos elétricos usa íon-lítio, com muito mais energia por kg e melhor eficiência.
- Autonomia e recarga: autonomia histórica na faixa de 60–80 km e recarga lenta (horas). Elétricos atuais costumam ter autonomias de centenas de quilômetros (dependendo do ciclo) e muitos aceitam recarga rápida DC em dezenas de minutos (quando disponível).
- Segurança e conforto: padrões atuais envolvem estrutura de impacto moderna, airbags, controles eletrônicos e gerenciamento térmico; o Itaipu era um projeto de outra era regulatória e tecnológica.
- Infraestrutura: nos anos 1970/80, não havia rede de recarga pública nem padrão de conectores; hoje o Brasil já tem milhares de pontos e corredores em expansão (ainda com desigualdades regionais).
- Escala e custo: o Itaipu foi feito em quantidades muito pequenas. Elétricos atuais são fabricados em escala global, o que reduz custos e melhora qualidade/assistência.
Contexto no Brasil (2025-2026)
Em 2025–2026, o Brasil vive uma fase de consolidação dos eletrificados, com crescimento de oferta e de infraestrutura, puxados sobretudo por modelos importados e por fábricas/linhas de montagem anunciadas ou ampliadas por grupos globais. Mesmo assim, preço, rede de recarga fora dos grandes centros e custo de seguro ainda pesam na decisão de compra. Incentivos variam muito por estado (IPVA, rodízio, benefícios locais), e a expansão de carregadores rápidos segue em ritmo desigual entre capitais e interior. Para uma visão prática e atualizada, o ideal é comparar modelos disponíveis, autonomia e onde recarregar.
Falência da Gurgel
Nos anos 90, com a concessão do governo sobre a isenção de IPI para todos os carros com motor abaixo de 999 cm3, a Gurgel não conseguiu permanecer no mercado devido a concorrência de grandes montadoras de segmento popular causando a derrocada da marca.
Mesmo solicitando um empréstimo de U$$ 20 milhões ao governo federal, na tentativa de salvar a empresa, a Gurgel declarou sua falência entrando para história da indústria automotiva brasileira com suas ideias a frente do seu tempo. Além disso, o Brasil dos anos 1970/80 também direcionou grande parte do esforço energético para o etanol (Proálcool), o que ajuda a explicar por que a eletrificação não virou política industrial dominante naquele período.
Vale o ajuste histórico: iniciativas nacionais existiram (a própria Gurgel chegou a desenvolver projetos com alto conteúdo local), mas o Brasil hoje não tem uma grande montadora 100% brasileira com escala global no segmento de automóveis de passeio — e competir com multinacionais exige capital, cadeia produtiva e volume.
Conclusão
O Gurgel Itaipu (E150 e, depois, E400) deve ser lido como história: uma prova de que a engenharia brasileira buscou soluções elétricas muito cedo, num tempo em que baterias, eletrônica de potência e infraestrutura eram grandes barreiras.
Hoje, o cenário é outro: há dezenas de modelos à venda, cadeia de componentes global e expansão de recarga. Mas entender o Itaipu ajuda a colocar o debate atual em perspectiva — e a valorizar pioneiros que tentaram antecipar um futuro que só décadas depois virou realidade comercial.
Para conectar essa história ao mercado atual, com comparativos, preços e modelos disponíveis, acesse: https://ekkogreen.com.br/carros-eletricos-no-brasil/.
As pessoas também perguntam
Quando surgiu o primeiro carro elétrico?
Os primeiros veículos elétricos apareceram no fim do século XIX. Nos EUA, um dos nomes mais citados é o inventor William Morrison, que construiu um automóvel elétrico por volta de 1890–1891, frequentemente lembrado como um dos primeiros projetos bem-sucedidos no país.
Qual foi o primeiro carro 100% elétrico de massa?
Não existe um único “primeiro” indiscutível, mas o Nissan Leaf (lançado em 2010) é amplamente reconhecido como um dos primeiros carros 100% elétricos produzidos em grande escala para o mercado de massa global.
Esse modelo (Gurgel Itaipu) é vendido no Brasil hoje?
Não. O Gurgel Itaipu E150/E400 não está em produção e nunca foi comercializado em massa. As unidades existentes são raras, geralmente em acervos e coleções, e podem aparecer ocasionalmente em encontros de carros antigos ou vendas entre colecionadores.