📅 Atualizado em maio/2026
Energia maremotriz é a geração de eletricidade a partir do movimento das marés. O Brasil tem potencial técnico estimado em 87 GW ao longo do litoral, com cerca de 17 GW em zonas consideradas conversíveis. Hoje, o país ainda não tem usinas comerciais em operação, mas projetos-piloto e pesquisas em universidades federais já testam as tecnologias que devem chegar ao litoral nas próximas décadas.
Em 2026, a energia dos oceanos ainda é um segmento de nicho no Brasil, mas com relevância crescente para o litoral e para a infraestrutura portuária. A base técnica existe: há estimativas de potencial técnico de aproximadamente 87 GW ao longo do litoral brasileiro (com cerca de 17 GW “conversível”, dependendo de restrições ambientais, de rede e de tecnologia). Ao mesmo tempo, a realidade é que o país ainda não possui usinas comerciais consolidadas – o que predomina são pilotos, P&D e projetos em fase de estudo.
Neste guia definitivo, você vai entender o que é energia maremotriz (e o que entra em “energia dos oceanos”), como a conversão funciona na prática, quais tecnologias existem (turbinas de maré, turbinas subaquáticas, “pipas aquáticas” e conversores de ondas), além de vantagens, limitações, custos (CAPEX, OPEX e LCOE) e um caminho de decisão para sítios no litoral e em portos. Também reunimos estudos de caso reais (MeyGen, CorPower, Pecém e TidalWatt) e o básico do licenciamento no Brasil (Lei 15.097/2025, IBAMA e Marinha).
O ponto-chave para manter expectativas realistas: a energia maremotriz e a energia das ondas são renováveis, mas exigem engenharia e operação em ambiente agressivo (corrosão, bioincrustação e cargas cíclicas), o que tende a elevar custos e prazos. Por isso, em muitos cenários, faz mais sentido começar por pilotos conectados a cargas específicas (por exemplo, em portos) antes de pensar em escala comercial.
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Perguntas frequentes sobre energia maremotriz
O Brasil tem usinas de energia maremotriz em funcionamento?
Não. Em 2026, o Brasil ainda não tem usinas mareomotrizes comerciais em operação. O país concentra seus esforços em pesquisa e desenvolvimento, com projetos-piloto conduzidos por instituições como UFSC, UFRJ e PUC-Rio, e iniciativas de P&D da Petrobras. A previsão dos pesquisadores é que as primeiras usinas de pequena escala possam surgir após 2030, condicionadas à regulamentação da ANEEL e ao desenvolvimento de tecnologias adaptadas ao litoral brasileiro.
Por que a energia maremotriz ainda não é usada no Brasil se o litoral é tão extenso?
Comprimento de litoral não é o fator decisivo. O que importa é a variação de maré, chamada de amplitude mareal. A maior parte do litoral brasileiro tem amplitude de 0,5 a 2 metros, o que é baixa para a tecnologia de barragem tradicional (que precisa de pelo menos 5 metros). As regiões com maior potencial estão no litoral do Maranhão e Pará, onde a amplitude pode chegar a 6 metros, mas ainda há desafios técnicos, ambientais e de infraestrutura de rede.
Qual é a diferença entre energia maremotriz e energia das ondas?
As duas usam o oceano, mas de formas distintas. A energia maremotriz aproveita o fluxo das marés, que segue ciclos previsíveis determinados pela gravidade da Lua. A energia das ondas capta o movimento irregular da superfície do mar, causado pelo vento. Na prática, a maremotriz é mais previsível e constante, mas exige locais específicos com alta amplitude mareal. A energia das ondas tem potencial em trechos maiores do litoral, mas ainda enfrenta desafios de durabilidade dos equipamentos no ambiente marinho.
Quanto custa gerar energia maremotriz comparado a outras fontes renováveis?
Em 2025, o custo nivelado de energia (LCOE) da maremotriz comercial ficou entre US$ 150 e US$ 300 por MWh, segundo a IRENA, bem acima da eólica onshore (US$ 33-60/MWh) e da solar fotovoltaica (US$ 30-50/MWh). O custo alto se explica pela complexidade de instalação em ambiente marinho, pela pequena escala atual e pelo número limitado de projetos comerciais no mundo. A expectativa é que o custo caia com a maturidade tecnológica, seguindo a trajetória da eólica offshore.
Quais países já usam energia maremotriz em escala comercial?
Três países lideram. A França tem a usina de La Rance em operação desde 1966, com 240 MW de capacidade instalada. A Coreia do Sul opera a usina de Sihwa Lake desde 2011, com 254 MW, atualmente a maior do mundo. O Canadá tem a barragem de Annapolis Royal (20 MW) na baía de Fundy, conhecida pelas maiores marés do planeta, com variação de até 16 metros. O Reino Unido avança em projetos de tidal stream (turbinas de corrente de maré) no Canal da Mancha e nas ilhas Orkney.
O que é energia maremotriz (e o que entra em “energia dos oceanos”)
Energia maremotriz é definida como a conversão da energia cinética e potencial das marés em eletricidade por meio de turbinas ou barragens instaladas em regiões costeiras com alta variação de maré. Diferente da energia das ondas (que capta o movimento irregular da superfície do mar) e do gradiente térmico oceânico (que usa a diferença de temperatura entre camadas), a maremotriz aproveita o fluxo previsível e cíclico das marés, determinado pela gravidade da Lua e do Sol.
Tipos de energia dos oceanos: comparação
| Tipo | Como funciona | Previsibilidade | Potência instalada global (2025) | Brasil |
|---|---|---|---|---|
| Maremotriz | Turbinas no fluxo de maré ou barragem estuária | Alta (ciclos lunares fixos) | ~521 MW (Sihwa, La Rance) | Sem usinas comerciais; pilotos em P&D |
| Energia das ondas | Dispositivos que captam o movimento da superfície | Média (variável por estação) | ~15-20 MW (global) | Projetos-piloto UFSC, Petrobras |
| Gradiente térmico (OTEC) | Diferença de temperatura entre camadas do mar | Alta (regiões tropicais) | ~0,2 MW (pilotos no Pacífico) | Potencial no litoral norte/nordeste |
| Gradiente salino | Diferença de salinidade entre rio e mar | Média | <1 MW (pilotos Noruega) | Pesquisa incipiente |
| Correntes oceânicas | Turbinas em correntes profundas contínuas | Alta | Pré-comercial | Estudos em andamento |
Fontes: IRENA Ocean Energy Series (2024), IEA Ocean Energy Technology (2023), EPE Balanço Energético Nacional 2025.
“Energia dos oceanos” é um termo guarda-chuva para tecnologias que convertem energia mecânica do mar em eletricidade. Na prática, ele engloba três recursos principais: marés, correntes e ondas.
Para evitar confusão (e manter a análise técnica correta), vale separar os termos:
- Energia maremotriz: associada às marés – pode aproveitar o desnível (amplitude) entre maré alta e maré baixa (por barragens/lagunas) ou as correntes de maré (turbinas submersas, como “eólica subaquática”).
- Energia undimotriz: associada às ondas (boias, colunas de água oscilante, atenuadores, overtopping etc.).
- Energia de correntes oceânicas: associada a correntes mais “constantes” (não necessariamente de maré), dependendo do sítio e da dinâmica local.
Um dado simples ajuda a ancorar o tema: marés são cíclicas e previsíveis (fenômeno que ocorre duas vezes ao dia, por cerca de 12 horas), enquanto ondas são mais variáveis e acontecem em períodos típicos de 6 a 10 segundos. Essa diferença impacta projeto, operação e integração elétrica.
Onde isso aparece no litoral e em portos: canais e acessos portuários (onde correntes podem acelerar), estuários, regiões próximas a molhes/dique, gargalos naturais (estreitos) e trechos de costa exposta ao swell (para ondas). Em portos, além do recurso, importa a infraestrutura existente (acesso para manutenção, energia, cabos, subestações e área para equipamentos).
Como funciona na prática: da energia do mar à eletricidade (passo a passo)
Apesar das diferentes tecnologias, o fluxo de conversão costuma seguir uma lógica comum:
- Recurso: maré (desnível ou corrente) ou onda (movimento oscilatório).
- Conversor: turbina submersa, boia, coluna de água oscilante, atenuador, overtopping ou “pipa aquática”.
- Condicionamento elétrico: conversores, controle e proteção (para entregar energia com qualidade compatível com a carga ou com a rede).
- Conexão: alimentação local (cargas do porto, por exemplo) ou conexão à rede (quando aplicável), normalmente por cabos submarinos e infraestrutura de costa.
As condições mínimas de recurso mudam por tecnologia, mas há referências práticas recorrentes: em projetos baseados em correntes, correntes úteis costumam ser da ordem de cerca de 2 m/s ou mais; em projetos por desnível (barragem/laguna), tende a ser necessária amplitude relevante e, quando aplicável, um desnível de referência acima de 7 m.
O ambiente marinho é o principal “imposto” do projeto. Corrosão, bioincrustação e cargas cíclicas elevam o custo e a complexidade de O&M – uma faixa de referência usada em avaliações iniciais é OPEX de R$ 5 a R$ 10 milhões por MW por ano. Isso explica por que logística, janelas de manutenção e confiabilidade são tão determinantes quanto a potência instalada.
Gancho para portos: portos concentram cargas elétricas (guindastes, bombas, refrigeração, iluminação, oficinas) e têm áreas de interface mar-terra. Por isso, projetos de energia do oceano podem entrar como geração local para reduzir demanda da rede em horários específicos, como pilotos híbridos (rede + renovável + armazenamento) e como plataformas de P&D com monitoramento meteoceanográfico contínuo.
Tipos e tecnologias (guia completo)
A seguir, as principais “famílias” tecnológicas de energia maremotriz e energia das ondas, com o que mais importa para decisões no litoral e em portos: como é, onde funciona melhor, maturidade típica e implicações de instalação e manutenção.
Turbinas de maré (correntes de maré)
São rotores submersos que funcionam de forma parecida com uma eólica, mas com água do mar (mais densa que o ar). Por isso, para a mesma área varrida, a potência pode ser alta – porém as cargas mecânicas, a corrosão e o esforço estrutural também aumentam.
- Como são: rotores submersos (geralmente em estrutura fixa ou em fundação no leito), com transmissão e gerador protegidos.
- Operação típica: 8 a 16 rpm (faixa citada para turbinas de maré).
- Eficiência de referência: 40% a 50% em condições adequadas.
- Materiais: necessidade de materiais e revestimentos resistentes à corrosão e fadiga; ligas como inox e titânio são citadas como referência em projetos offshore pela resistência.
- Aplicações: canais/estreitos e áreas com correntes previsíveis (incluindo acessos portuários com aceleração de fluxo).
Turbinas subaquáticas (correntes) – recorte Brasil (TidalWatt)
Um caminho comum para viabilizar pilotos e projetos de demonstração é a modularidade: em vez de uma única turbina grande, instala-se um conjunto de unidades menores, escalando em “fazendas” (arrays) até atingir MWs.
- Especificações citadas: diâmetro de 2 a 5 m e potência de 50 a 500 kW por unidade.
- Como escalar: arranjos com múltiplas unidades, compartilhando parte da infraestrutura de conexão e monitoramento.
- Onde faz sentido: locais com corrente constante e restrições de ocupação superficial (vantagem estética e de uso da lâmina d’água), incluindo áreas portuárias onde a superfície é concorrida por tráfego e operação.
“Pipas aquáticas” (kites subaquáticos)
As “pipas” subaquáticas (kites) são perfis hidrodinâmicos que “voam” em trajetórias controladas, aumentando a velocidade relativa no rotor e, com isso, a energia capturada. A promessa técnica do conceito é reduzir estrutura fixa e aproveitar correntes moderadas, mas a maturidade ainda é emergente em relação a turbinas mais convencionais.
- Como funcionam: um kite descreve uma trajetória (por controle) para amplificar a velocidade relativa no gerador.
- Referência citada: protótipos (ex.: Minesto) reportam cerca de 1 MW em corrente de aproximadamente 3 m/s (maturidade ainda emergente).
- Quando considerar: áreas com corrente moderada e necessidade de reduzir obras civis e estrutura fixa no leito, desde que o licenciamento e a navegabilidade permitam.
Energia das ondas (conversores)
A energia das ondas (undimotriz) converte o movimento oscilatório do mar (subida/descida, avanço/recuo, compressão de ar/água) em eletricidade. Existem várias arquiteturas, e a adequação ao sítio (altura/período de onda, extremos, proximidade da costa e acesso para manutenção) define mais o sucesso do que o “tipo” em si.
- Arquiteturas comuns: boias/absorvedores pontuais, atenuadores, coluna de água oscilante, overtopping.
- Boias tipo Eco Wave Power: eficiência típica de 20% a 30% (referência citada) e CAPEX estimado de R$ 35 a R$ 70 milhões por MW (estimativa do briefing).
- Nota prática: ondas impõem cargas extremas em tempestades e podem exigir estratégia de “sobrevivência” (recolhimento, desacoplamento ou modo seguro), o que influencia disponibilidade e custo de manutenção.
| Tecnologia | Recurso | Faixa de potência | Eficiência (ref.) | CAPEX (ref.) | Melhor uso (portos/litoral) |
|---|---|---|---|---|---|
| Turbinas de maré | Correntes de maré | Projeto em MW (por array) | 40% a 50% | R$ 35 a R$ 70 mi/MW | Estreitos, canais, acessos portuários com corrente previsível |
| Turbinas subaquáticas (ex.: TidalWatt) | Correntes | 50 a 500 kW por unidade | Não informado no briefing | Não informado no briefing | Pilotos modulares, conexão local, baixa ocupação visual |
| Kites subaquáticos | Correntes | Referência de protótipo em MW | Não informado no briefing | Não informado no briefing | Corrente moderada, reduzir estrutura fixa (maturidade emergente) |
| Boias (ex.: Eco Wave Power) | Ondas | Projeto em MW (por múltiplas unidades) | 20% a 30% | R$ 35 a R$ 70 mi/MW | Costas expostas e infraestrutura costeira/portuária para acesso e O&M |
Ondas vs. marés: diferenças que decidem o projeto
Escolher entre ondas e marés não é só uma preferência tecnológica – muda previsibilidade, estratégia de manutenção, tipo de infraestrutura e até o modelo de contratação. A comparação abaixo foca nos fatores que mais afetam projetos no litoral e em portos.
- Previsibilidade: marés são cíclicas (duas vezes ao dia, cerca de 12 horas), o que ajuda no planejamento operacional; ondas variam mais com clima e regime de swell.
- Variabilidade e extremos: ondas sofrem mais com eventos extremos e impõem cargas elevadas, influenciando disponibilidade e estratégia de sobrevivência; marés são mais estáveis no curto prazo, mas a velocidade de corrente pode variar por ciclo.
- O&M e acesso: ambos sofrem com corrosão e bioincrustação, mas ondas podem demandar manutenção mais frequente por fadiga e tempestades; marés exigem logística submersa e janelas de mar.
- Conexão e licenciamento: em portos, ondas podem ser atrativas quando há estruturas costeiras existentes (molhes/dique) para instalação e acesso; marés podem ser atrativas em canais e acessos com corrente acelerada, desde que não conflite com navegação.
Faixas comparáveis citadas no briefing (para triagem inicial): eficiência de marés em 40% a 50% vs boias de ondas em 20% a 30%; CAPEX em ambos na faixa de R$ 35 a R$ 70 milhões por MW (com variação grande por sítio); LCOE inicial estimado em R$ 0,40 a R$ 0,60/kWh para maremotriz e R$ 0,50 a R$ 0,70/kWh para ondas, enquanto a eólica offshore aparece como benchmark em R$ 0,20 a R$ 0,40/kWh.
Mini-decisor: se o objetivo principal é previsibilidade e planejamento operacional, marés tendem a ser o primeiro candidato; se o sítio tem swell consistente e infraestrutura costeira (especialmente em áreas portuárias), ondas podem ser mais fáceis de integrar em pilotos e demonstrações.
| Tecnologia | Previsibilidade | Eficiência (ref.) | CAPEX (R$ mi/MW) | OPEX (R$ mi/MW/ano) | LCOE (R$/kWh) | Melhor caso de uso |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Turbinas de maré | Alta (cíclica) | 40% a 50% | 35 a 70 | 5 a 10 | 0,40 a 0,60 | Canais/estreitos, acessos com corrente previsível |
| Boias de ondas (Eco Wave Power) | Média (dependente de clima e swell) | 20% a 30% | 35 a 70 | 5 a 10 | 0,50 a 0,70 | Costas expostas e estruturas costeiras/portos |
| Eólica offshore (benchmark) | Média | Não informado no briefing | 18 a 35 | Não informado no briefing | 0,20 a 0,40 | Escala em GW, quando há cadeia e regulação maduras |
Vantagens e limitações (sem hype) para litoral e portos
Para portos e ativos costeiros, a energia do oceano pode ser interessante não só por “gerar renovável”, mas por permitir geração local em pontos estratégicos. Ainda assim, os custos e a complexidade offshore exigem leitura pé no chão.
Vantagens práticas
- Previsibilidade (marés): ciclos conhecidos ajudam a planejar operação e manutenção.
- Alta densidade energética do fluido: a água do mar é mais densa que o ar, o que pode resultar em boa potência por área varrida (com a contrapartida de maiores esforços mecânicos).
- Baixa ocupação visual: boa parte das soluções é submersa ou integrada a estruturas costeiras, reduzindo impacto visual em comparação com alternativas em superfície.
- Geração local para portos: potencial de atender cargas portuárias e apoiar eletrificação (quando o sítio permite), inclusive em arquiteturas híbridas.
Limitações práticas
- CAPEX elevado: faixa de referência de R$ 35 a R$ 70 milhões por MW para maremotriz/ondas (no briefing), tipicamente acima de alternativas maduras.
- OPEX alto: referência de R$ 5 a R$ 10 milhões por MW por ano, puxado por manutenção offshore, logística e paradas.
- LCOE inicial acima do benchmark: maremotriz em R$ 0,40 a R$ 0,60/kWh e ondas em R$ 0,50 a R$ 0,70/kWh, contra eólica offshore em R$ 0,20 a R$ 0,40/kWh (faixas do briefing).
- Ambiente agressivo: corrosão, bioincrustação e cargas cíclicas exigem materiais, revestimentos e inspeções frequentes.
- Janelas de manutenção: clima e mar determinam quando é possível operar embarcações e fazer intervenções.
- Licenciamento e impactos: necessidade de estudos ambientais, gestão de ruído subaquático e interação com fauna, além de interfaces com pesca e navegação.
- Maturidade no Brasil: predominância de pilotos e cadeia de suprimentos ainda em consolidação, o que afeta risco de cronograma e custo.

Custos, CAPEX/LCOE e payback: como estimar a viabilidade (Brasil)
Para triagem econômica inicial (antes de engenharia detalhada), as faixas do briefing ajudam a comparar tecnologias e entender por que muitos projetos começam como pilotos:
- CAPEX (maremotriz/ondas): R$ 35 a R$ 70 milhões por MW.
- OPEX: R$ 5 a R$ 10 milhões por MW por ano.
- Benchmark (eólica offshore): CAPEX de R$ 18 a R$ 35 milhões por MW.
- LCOE inicial (maremotriz): R$ 0,40 a R$ 0,60/kWh.
- LCOE inicial (ondas): R$ 0,50 a R$ 0,70/kWh.
- LCOE (eólica offshore): R$ 0,20 a R$ 0,40/kWh.
Uma forma simples de começar é usar um payback aproximado, entendendo que ele não substitui modelagem financeira (CAPEX por fase, OPEX real, disponibilidade, seguros, custo de capital, conexão e impostos), mas ajuda a comparar cenários.
Fórmula (simplificada): Payback = CAPEX / (produção anual x preço ou LCOE assumido)
Exemplo do briefing: R$ 50 milhões / (20 GWh/ano x R$ 0,50/kWh) = R$ 50 mi / (20.000.000 kWh x 0,50) = R$ 50 mi / R$ 10 mi/ano = aproximadamente 15 anos. Em análises iniciais para o Nordeste, é citada faixa típica de 12 a 20 anos, variando por sítio.
Para manter o cálculo evergreen: CAPEX e LCOE mudam muito com profundidade, distância até ponto de conexão, meteoceanografia (corrente/onda), necessidade de obras civis (em costa/porto) e exigências do licenciamento.
Mini-calculadora (payback simplificado): Payback (anos) = CAPEX / (GWh/ano x 1.000.000 x R$/kWh)
Projetos e estudos de caso (o que dá para aprender)
Estudos de caso são a forma mais rápida de entender o que realmente pesa em energia dos oceanos: confiabilidade, logística, tempo de manutenção, performance em mar real e lições de integração elétrica.
MeyGen (Escócia) – marés/correntes
O MeyGen é um dos projetos mais conhecidos de turbinas de corrente de maré. Na fase inicial, é citado um arranjo de 6 MW, com visão de projeto total de 398 MW. Também são citadas turbinas AR1500 de cerca de 1,5 MW, com rotação típica reportada na faixa de aproximadamente 15 a 18 rpm.
Um número de referência citado para a fase inicial é produção de aproximadamente 25 GWh/ano. A principal lição é que a tecnologia funciona em mar real, mas a logística e a manutenção submersa (inspeções, troca de componentes e janelas de mar) são parte central do custo e da disponibilidade.

CorPower (Suécia/Portugal) – ondas
No caso da energia das ondas, a CorPower é citada com o protótipo C4 de aproximadamente 300 kW, com testes em Portugal (citados como em 2023). A narrativa técnica do projeto inclui amplificação do movimento (citada como 3x) e eficiência “reportada” alta em testes, mas o aprendizado mais útil para o setor é outro: sobrevivência a tempestades, performance consistente em mar real e integração elétrica com boa disponibilidade.
Brasil: Pecém (CE) – ondas (UFRJ/COPPE)
O piloto do Porto do Pecém (Ceará) é um marco brasileiro em energia das ondas. É citada uma potência de referência de aproximadamente 100 kW, com operação/monitoramento em 2012 a 2015 e continuidade/retomadas citadas. O aprendizado mais claro é que, no Brasil, o desafio não é só técnico – é de continuidade de investimento, governança do projeto e coleta de dados meteoceanográficos locais por tempo suficiente para reduzir incerteza.
Brasil: TidalWatt – turbinas subaquáticas
A TidalWatt é citada como exemplo brasileiro de turbinas subaquáticas menores e modulares, com especificações referidas de 50 a 500 kW por unidade e diâmetro de 2 a 5 m, com testes no litoral (SP/RJ) conforme citado. Para portos, a lição principal é a modularidade: facilita piloto, aprendizado de O&M e expansão por etapas, além de permitir desenho que se adapte a restrições de área e navegação.
| Projeto | Tecnologia | Potência | Local | Status | Números-chave |
|---|---|---|---|---|---|
| MeyGen | Turbinas de corrente de maré | 6 MW (fase inicial); 398 MW (total citado) | Escócia | Operação por fases | AR1500 ~1,5 MW; ~15-18 rpm; ~25 GWh/ano (fase inicial citada) |
| CorPower (C4) | Ondas (conversor) | ~300 kW | Portugal (testes citados) | Protótipo/testes | Amplificação de movimento (3x) citada; eficiência reportada em testes |
| Porto do Pecém (COPPE/UFRJ) | Ondas (boias + hidráulica) | ~100 kW | Ceará, Brasil | Piloto (2012-2015 citados) e continuidade/retomadas | Foco em P&D e dados meteoceanográficos |
| TidalWatt | Turbina subaquática (correntes) | 50-500 kW por unidade | Brasil (SP/RJ citados) | Testes/pilotos | Diâmetro 2-5 m; modularidade para escalar |
Onde faz sentido no Brasil (mapa de decisão por região e tipo de sítio)
O “onde faz sentido” depende mais do recurso local (maré, corrente, onda), da logística e das restrições do que de linhas no mapa. Ainda assim, há padrões regionais úteis para triagem.
- Norte e Nordeste: citados como regiões com maior amplitude de marés (destaques recorrentes incluem AP, PA e MA), o que pode favorecer projetos maremotrizes por desnível e, em pontos específicos, correntes fortes em canais e estuários.
- Sudeste e Sul: menor amplitude média de marés em muitos trechos, o que tende a deslocar oportunidades para nichos de corrente local (aceleração por geografia) e ondas em áreas expostas, dependendo do sítio.
Aplicações por tipologia (úteis para portos e litoral):
- Estuários e canais: marés/corrente com turbinas submersas, desde que não conflite com navegação, dragagem e rotas de fauna.
- Costa exposta: conversores de ondas (boias, coluna de água oscilante, overtopping), com foco em sobrevivência a tempestades e acesso de manutenção.
- Infraestrutura portuária: pilotos integrados a molhes/dique e cargas do porto, com soluções híbridas (rede + renovável + armazenamento) e monitoramento ambiental.
Para dimensionar ambição: o litoral brasileiro é citado com potencial técnico de aproximadamente 87 GW, mas o “convertível” (cerca de 17 GW na referência citada) depende de restrições ambientais, disponibilidade de conexão e maturidade tecnológica. Em outras palavras: potencial existe, mas transformar em projeto exige sítio certo e execução bem planejada.

Regulação e licenciamento no Brasil (Lei 15.097/2025 + órgãos)
No Brasil, projetos no mar e em áreas costeiras (incluindo energia maremotriz e energia das ondas) tendem a envolver, em diferentes combinações, regras de cessão de área, licenciamento ambiental, autorizações marítimas e conexão elétrica. O sequenciamento correto reduz retrabalho e risco de cronograma.
Lei 15.097/2025: estabelece regras para geração em alto-mar, incluindo o uso de “prismas” e coordenação institucional (MME/ANEEL). Na prática, isso afeta como a área offshore é organizada e como um projeto se estrutura para ter direito de uso do espaço marítimo em empreendimentos de geração no mar.
Licenciamento ambiental: quando aplicável, exige estudos e avaliação de impactos (EIA/RIMA), com o IBAMA atuando nos casos de competência federal. Em energia dos oceanos, pontos típicos incluem ruído subaquático, interação com fauna, efeitos em sedimentos e sinergia com tráfego marítimo e pesca.
Autorizações marítimas (Marinha): projetos precisam respeitar regras e rotinas de segurança da navegação e interferências com tráfego, principalmente em áreas portuárias. A interface com normas como a NORMAM-11 (citada) entra no desenho de sinalização, exclusões de área, riscos operacionais e procedimentos.
Conexão elétrica e comercialização: seguem diretrizes e processos regulados, incluindo requisitos técnicos, estudos de acesso e, quando aplicável, integração ao SIN. Para pilotos em portos, às vezes a estratégia inicial é atender uma carga local (reduzindo complexidade), mas isso não elimina exigências de segurança e conformidade.
Normas e conformidade: além de requisitos marítimos e ambientais, projetos precisam cumprir requisitos de segurança elétrica e qualidade, com interfaces típicas com certificações e normas técnicas (INMETRO/ABNT) conforme o escopo do equipamento e da instalação.
Atenção aos prazos: como referência de planejamento, é citado um horizonte de 3 a 5 anos para o ciclo total (do estudo ao comissionamento), com risco de atraso associado a dados meteoceanográficos insuficientes, mudanças de escopo no licenciamento e complexidade de engenharia offshore.
Fornecedores, parceiros e cadeia no Brasil (quem compõe um projeto)
Um projeto de energia dos oceanos raramente é “um fornecedor só”. Ele costuma ser um ecossistema com papéis bem definidos: desenvolvedor, engenharia, fabricação, instalação, operação e pesquisa. Abaixo está um mapeamento de atores citados para compor cadeia e parcerias (sem promessa comercial e sem exclusividade).
- Desenvolvedor/tecnologia: TidalWatt.
- Pesquisa e P&D: COPPE/UFRJ.
- Serviços marítimos, monitoramento e operação offshore: OceanPact, Oceânica Engenharia, Seatram, Brave Offshore, Techanocean.
- EPC e integração offshore (referências de cadeia no Brasil): Modec, SBM Offshore, Queiroz Galvão Óleo & Gás, UTC Engenharia.
Como contratar de forma prática (especialmente para portos):
- Piloto (P&D): foco em medição, protótipo e confiabilidade – contrato com KPIs de dados (corrente/onda, disponibilidade, falhas) e plano de monitoramento ambiental.
- Demonstração (pré-comercial): foco em repetibilidade e O&M – integração elétrica mais robusta e plano de manutenção com janela marítima.
- Escala: foco em risco de cadeia e financiamento – histórico offshore, certificações, experiência em corrosão, ancoragem e cabos submarinos.
Checklist: do estudo à implantação (Brasil)
- [ ] Medição e modelagem meteoceanográfica (correntes/ondas/maré) + batimetria
- [ ] Triagem de viabilidade: recurso (ex.: corrente ~≥2 m/s; restrições ambientais e navegação)
- [ ] Estudo conceitual e pré-CAPEX/OPEX (faixas: CAPEX R$ 35-70 mi/MW; OPEX R$ 5-10 mi/MW/ano)
- [ ] Licenciamento: EIA/RIMA (IBAMA/órgão competente)
- [ ] Regularização offshore: prisma (Lei 15.097/2025) + interfaces ANEEL/MME
- [ ] Autorizações Marinha (NORMAM-11) e gestão de tráfego/navegação (porto)
- [ ] Engenharia básica/detalhada (ancoragem, corrosão, cabos, subestação)
- [ ] Contratação (EPC/O&M) e plano de manutenção (janela marítima)
- [ ] Comissionamento, monitoramento ambiental e performance (KPIs: disponibilidade, GWh/ano, custo O&M)

Conclusão
Energia maremotriz e energia dos oceanos (marés, correntes e ondas) formam um conjunto de tecnologias renováveis com potencial relevante para o litoral e para portos no Brasil. O caminho técnico começa por entender o recurso (maré/onda/corrente), como a conversão funciona na prática e quais tecnologias se encaixam melhor: turbinas de maré (8-16 rpm e eficiência de referência 40%-50%), turbinas subaquáticas modulares (como o recorte citado da TidalWatt), “pipas aquáticas” (maturidade emergente) e conversores de ondas (boias, coluna de água oscilante, overtopping).
Na comparação direta, marés tendem a entregar mais previsibilidade e, em referências, maior eficiência que boias de ondas (40%-50% vs 20%-30%), mas ambas enfrentam custos elevados e O&M difícil: CAPEX de R$ 35-70 mi/MW, OPEX de R$ 5-10 mi/MW/ano e LCOE inicial acima de alternativas maduras (com eólica offshore como benchmark em CAPEX de R$ 18-35 mi/MW). Estudos de caso como MeyGen, CorPower e os pilotos brasileiros no Pecém ajudam a entender o que mais pesa: confiabilidade, manutenção e dados meteoceanográficos locais.
Próximos passos (portos e litoral): selecionar o recurso prioritário (maré/corrente ou onda), iniciar medição e modelagem meteoceanográfica, escolher a tecnologia compatível com o sítio e com a navegabilidade, pré-orçar CAPEX/OPEX e começar cedo a trilha regulatória e de licenciamento (Lei 15.097/2025, IBAMA quando aplicável e autorizações da Marinha/NORMAM-11) antes de avançar para engenharia detalhada e EPC.