O Complexo Industrial e Portuário do Pecém, no Ceará, assinou um acordo formal com o porto de Rotterdam (Países Baixos) e o Duisport (Alemanha) durante a World Hydrogen 2026, realizada em 21 de maio, em Rotterdam. O objetivo é exportar “moléculas verdes” produzidas no Ceará para o mercado europeu a partir de 2029. A cerimônia contou com a presença do rei Willem-Alexander dos Países Baixos e foi oficializada por nota da Secretaria do Desenvolvimento Econômico do Ceará (SDE-CE).
O Brasil acaba de firmar uma posição concreta no mapa global do hidrogênio verde e o Ceará é o ponto de partida.
O que é hidrogênio verde e por que o Brasil é candidato natural?
O hidrogênio verde é produzido a partir da eletrólise da água usando energia 100% renovável: solar, eólica ou hídrica. Nenhum carbono é emitido no processo. É considerado um dos combustíveis mais limpos para descarbonizar setores que não conseguem eletrificação direta, como siderurgia, fertilizantes e aviação.
O Brasil reúne duas condições que poucos países têm ao mesmo tempo: vasta disponibilidade de fontes renováveis e custo de geração entre os mais baixos do mundo. A IRENA (Agência Internacional de Energia Renovável) estima que o Brasil pode produzir hidrogênio verde a menos de US$ 1,50/kg até 2030, abaixo da média global projetada de US$ 2,00/kg. Para entender melhor o contexto nacional, a Ekko Green publicou um panorama completo sobre o hidrogênio verde no Brasil em 2026.
Por que o Ceará? O que é o Complexo do Pecém?
O Complexo Industrial e Portuário do Pecém fica a cerca de 60 km de Fortaleza, na zona costeira do Ceará. Nasceu como porto de apoio à indústria do aço, mas virou nos últimos anos uma das principais zonas de processamento de exportação (ZPE) do Brasil.
Dois fatores tornam o Pecém uma localização estratégica para H2V:
Irradiação solar elevada e vento constante. O Ceará tem uma das maiores produções de energia eólica do país e alta irradiação solar ao longo do ano. Isso significa energia renovável barata e abundante para alimentar os eletrolisadores.
Distância até a Europa. O Ceará fica a aproximadamente 7.600 km de Rotterdam em linha reta, contra cerca de 9.200 km saindo do Sudeste. Essa diferença reduz o custo de transporte do hidrogênio na forma de amônia verde ou outros portadores energéticos, tornando a rota economicamente mais viável.
Já há mais de R$ 20 bilhões em projetos de H2V anunciados para a ZPE Pecém, segundo dados do governo do Ceará. Empresas como EDP, Fortescue e Neoenergia têm projetos em fase de licenciamento na região.

Rotterdam e Duisport: por que esses portos importam para a Europa?
Rotterdam é o maior porto da Europa, responsável por mais de 40% de toda a carga que entra e sai da União Europeia. Não é coincidência que ele seja o destino preferencial para importações de energia verde europeia. O porto já tem infraestrutura em construção para receber e redistribuir amônia verde, hidrogênio líquido e outros derivados.
Duisport é o maior porto interior do mundo, localizado em Duisburgo, na Alemanha. Conecta os portos costeiros europeus ao coração industrial do continente: o vale do Ruhr, onde estão concentradas as indústrias de aço, química e manufatura pesada que mais precisam de hidrogênio verde para descarbonizar suas operações.
A combinação dos dois significa que o H2V produzido no Ceará não apenas chega à Europa: ele chega direto à demanda industrial que vai pagá-lo.
O que muda a partir de 2029?
O acordo assinado durante a World Hydrogen 2026 estabelece um protocolo de cooperação técnica e comercial entre o Pecém, Rotterdam e Duisport. Na prática, isso inclui desenvolvimento conjunto de infraestrutura de recepção, acordos de offtake (contratos de compra antecipada) e padronização dos portadores energéticos aceitos: provavelmente amônia verde como vetor principal.
A data de 2029 é ambiciosa, mas não arbitrária. A União Europeia precisa importar ao menos 10 milhões de toneladas de H2V por ano até 2030, conforme o pacote REPowerEU. Hoje, a capacidade de produção global está muito abaixo disso. Acordos bilaterais como este com o Pecém são a forma concreta que a Europa encontrou de garantir oferta antes da data limite.
Para o Brasil, significa a possibilidade de transformar energia solar e eólica, que já são abundantes e baratas, em um produto de exportação de alto valor agregado, com demanda europeia garantida em contrato.
O que esse acordo significa para o setor de energia limpa brasileiro
O Ceará não está sozinho nessa corrida. Rio Grande do Norte, Piauí e Rio Grande do Sul também têm projetos de H2V em andamento. Mas o Pecém tem uma vantagem que vai além da geografia: a ZPE oferece incentivos tributários que reduzem o custo total de instalação dos eletrolisadores em até 30%, segundo estimativas do setor.
O acordo com Rotterdam e Duisport é o tipo de sinalização que atrai investimento privado. Quando um porto do porte de Rotterdam assina um protocolo formal, ele está dizendo para o mercado financeiro que aquela rota tem viabilidade comercial real.
O Brasil tem a energia. Tem a costa. Tem o sol e o vento. Agora tem o contrato. O próximo passo é executar.
Perguntas frequentes
O que é o Complexo do Pecém?
O Complexo Industrial e Portuário do Pecém é uma zona de processamento de exportação (ZPE) localizada no município de São Gonçalo do Amarante, no Ceará, a 60 km de Fortaleza. Tem porto de águas profundas, área industrial e benefícios tributários para empresas exportadoras. Está se tornando o principal polo de hidrogênio verde do Brasil.
O que é hidrogênio verde?
Hidrogênio verde é hidrogênio produzido por eletrólise da água usando energia renovável (solar, eólica ou hídrica). O processo não emite carbono. É usado para descarbonizar setores como aço, fertilizantes e aviação, que não conseguem eletrificação direta.
Por que Rotterdam é o destino de referência para H2V europeu?
Rotterdam é o maior porto da Europa e o principal ponto de entrada de energia do continente. O porto já tem projetos de infraestrutura para receber amônia verde e hidrogênio líquido. Fechar um acordo com Rotterdam é, na prática, fechar um acordo com a cadeia industrial europeia inteira.
Quando o Pecém vai exportar H2V para a Europa?
O acordo assinado em maio de 2026 prevê início das exportações até 2029. A data é alinhada com a meta da União Europeia de importar 10 milhões de toneladas de hidrogênio verde por ano até 2030, conforme o pacote REPowerEU.
Fontes consultadas
- Secretaria do Desenvolvimento Econômico do Ceará (SDE-CE). Nota oficial: assinatura de acordo Pecém-Rotterdam-Duisport na World Hydrogen 2026. Fortaleza: SDE-CE, 21 mai. 2026.
- IRENA. Green Hydrogen Cost Reduction: Scaling Up Electrolysers to Meet the 1.5°C Climate Goal. Abu Dhabi: IRENA, 2025.
- Comissão Europeia. REPowerEU Plan: Hydrogen Import Targets. Bruxelas: CE, 2022 (metas mantidas para 2030).
- Port of Rotterdam Authority. Rotterdam as European Hydrogen Hub: Infrastructure Update. Rotterdam, 2025.
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